quarta-feira, 22 de abril de 2015

O Conto “A Bela e a Fera”: da simbologia alquímica ao processo de individuação - Parte 3

              O Conto “A Bela e a Fera”: da simbologia alquímica ao processo de individuação - Parte 3



             O impulso de retorno à mãe pode ser visto como um impulso de volta ao inconsciente. Sob certas circunstâncias, isso pode ser regressivo, levando à neurose e à psicose; doença psicológica ou morte. Em outras circunstâncias, ou seja, no processo de individuação, a regressão pode ser temporária e em prol da renovação psicológica e do renascimento simbólico (“recuar para saltar melhor”).

              Sobre a regressão e o processo de cura, Jung diz: “Parece que o processo de cura mobiliza essas forças para alcançar os seus objetivos. É que as representações míticas, com seu simbolismo característico, atingem as profundezas da alma humana, os subterrâneos da história, aonde a razão, a vontade e a boa intenção nunca chegam. Isso porque elas também provêm daquelas profundezas e falam uma linguagem, que, na verdade, a razão contemporânea não entende, mas mobilizam e põem a vibrar no íntimo do homem. A regressão que poderia assustar-nos à primeira vista é, portanto, muito mais um “reculer pour mieux sauter”, um concentrar e integrar forças, que no decorrer da evolução vão constituir uma nova ordem.” (Jung, C.G. , 2007, p. 13).
       
               Deste modo, na visão junguiana a função do símbolo é ser um agente curativo que age como ponte para reconciliar os opostos, ou seja, uma tentativa do inconsciente de levar a libido regressiva para um ato criativo, mostrando assim o caminho para a solução do conflito. Assim, Jung nos fala da importância do conhecimento dos símbolos em análise, uma vez que a meta da psicoterapia não se resume a cessão dos sintomas, mas a realização plena das potencialidades a partir do processo de individuação. “[...].

              Neste caso o conhecimento dos símbolos é indispensável, pois é nestes que se dá a união de conteúdos consciente e inconsciente. Da união emergem novas situação ou estados de consciência. Designei por isso a união de opostos pelo termo “função transcendente”. A meta de uma psicoterapia que não se contente apenas com a cura dos sintomas é a de conduzir a personalidade a totalidade.” (JUNG, 2006, p. 282)

             Bela retorna ao lar transformada, e isso atiça a inveja de suas irmãs. Esse momento do conto representa o confronto com a sombra e aos aspectos regressivos do inconsciente, que dificultam a comunicação do ego com o Self e obstrui o processo de individuação. As irmãs de Bela, ardilosamente, fazem tudo para agradá-la e para que esqueça de retornar ao castelo da Fera. Porém, Bela pressente o chamado da Fera, e ao voltar depara-se com a Fera agonizando de tristeza (operação mortificatio, na alquimia). A partir desse momento, Bela percebe o lado humano da Fera, assim como o sentimento de amor. Desse modo, a heroína tem a vivência da coniunctio, a vivência dos opostos, visto que a Fera não é mais um animal repugnante, mas como um ser humano (pois tem sentimento) que desperta seu amor.



             “De acordo com o simbolismo alquímico, a coniunctio é o objetivo do processo; é a entidade, a matéria, a substância que é criada pelo processo alquímico quando ele finalmente obtém sucesso em unir os opostos. É algo misterioso, transcendente, que pode ser expresso por muita imagens simbólicas. [...]” (EDINGER, 2008, p. 21).

              Em JUNG (2003), “[...].A operação alquímica consistia essencialmente numa separação da prima matéria do assim chamado caos, no princípio ativo, isto é, a alma, e no princípio passivo, isto é, o corpo, os quais posteriormente se reunificavam sob a forma personificada da “coniunctio”, do “matrimonium chymicum”; em outras palavras a “coniunctio” era vista como uma alegoria do hierosgamos, a união ritual de Sol e Lua. Dessa união nascia o filius sapientiae, o philosophorum: O Mercurius transformado, considerado como hermafrodita, devido à forma esférica de sua completude.”(JUNG, 2003, p. 125)

              A partir da vivência dos opostos, o animus animalesco, sombrio, torna-se humano. Assim, o feitiço que condenou o príncipe a viver como Fera é quebrado e este pede Bela em casamento. O casamento é um símbolo muito recorrente nos contos de fadas e mitos que retratam a saga de heroínas. Nos mitologemas do herói há uma cisão entre inconsciente e consciente. O herói mata o monstro, representando essa cisão e, principalmente a construção do ego “herói” que se diferencia do monstro “inconsciente”. Já nos contos de heroína, diferentemente nos de herói, podemos observar que o princípio feminino faz parte do aspecto do inconsciente e, por tanto lida com ele na esfera da relação e não da cisão.

               Daí, o casamento ser o símbolo perfeito para retratar a meta final do processo de individuação, da relação entre os opostos, como nos fala Boechat (2008), “O modelo mítico mostra sempre o mitologema do herói que mata o monstro. Este mitologema configura a estruturação da consciência a partir do inconsciente. A morte do monstro simboliza o domínio ou repressão de impulsos instintivos primitivos. Configura-se aqui a oposição instinto-cultura definida por Freud. Entretanto, há mitos de epopéias personificadas por heroínas. Estas normalmente não matam o monstro, mas, ao contrário, casam-se com ele.

               O conto de fadas A Bela e a Fera ilustra bem esta situação, também configurada no Mito de Eros e Psique. (...). É provável que a heroína, como mulher, personifique uma possibilidade da tão buscada coniunctio oppositorum alquímica, a união dos opostos, a última e mais difícil das operações, pois representa a união do inconsciente e do consciente, objetivo final do processo de individuação. A heroína estrutura a consciência pois perfaz o ato heróico; ao mesmo tempo, seus valores são do inconsciente, pois pertence ao domínio do feminino, da emoção” (BOECHAT,W., 2008, p. 67-68).


 Bibliografia
BEAUMONT, Jeanne-Marie Le Prince de. A Bela e a Fera. In: Fábulas Encantadas. São Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial, 1982.
BOECHAT, W. A Mitopoese da Psique- Mito e Individuação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008
CHEVALIER, J., GLEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. DIECKMANN, H. Contos de Fada Vividos. São Paulo: Edições Paulinas, 1986
EDINGER, E. O Mistério da Coniunctio. Imagem Alquímica da Individuação. São Paulo: Paulus, 2008. ESTÉS, C. P. Mulheres que Correm com os Lobos – Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
JACOBI, J. Complexo Arquétipo Símbolo na Psicologia de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 1995.
JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia. Obras Completas vol. XVI – Petrópolis: Vozes, 2007. ______ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obras Completas vol. IX/1 – Petrópolis: Vozes, 2006. ______ Estudos Alquímicos. Obras Completas vol. XIII– Petrópolis: Vozes, 2003. ______ Psicologia e Alquimia. Obras Completas vol. XII – Petrópolis: Vozes, 1991.
JUNG, E. Animus e Anima. São Paulo: Cultrix, 2005.
LEONARD, L.S. A Mulher Ferida: em Busca de um Relacionamento Responsável entre Homem e Mulher. São Paulo: Summus, 1997.
VON FRANZ, M-L. Reflexos da Alma – Projeção e Recolhimento Interior na Psicologia de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992. ______ O Feminino nos Contos de Fadas. Petrópolis: Vozes, 1995. ______ A Interpretação dos Contos de Fada. São Paulo: Paulus, 1990.
WOOLGER, J.B. e WOOLGER, R. J. A Deusa Interior: Um Guia sobre os Eternos Mitos Femininos que Moldam nossas Vidas. São Paulo: Cultrix, 1987.
WIKIPEDIA A Bela e a Fera. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Bela_e_a_Fera. Acesso em: 15 de dezembro de 2009.

Autora: Gabriella Gomes Cortes. Psicóloga graduada pela UFRJ. Pós- graduanda em Psicologia Analítica pelo IBMR. Psicóloga da Prefeitura de Niterói (SMAS)

O Conto “A Bela e a Fera”: da simbologia alquímica ao processo de individuação - Parte 2

       O Conto “A Bela e a Fera”: da simbologia alquímica ao processo de individuação - Parte 2


 A Bela e A Fera (La belle et la bête - 2014)

                  No conto A Bela e a Fera podemos perceber muitos paralelos com a simbologia alquímica, que Jung concebe como uma alegoria do processo de individuação. O conto tem início com a ruína do pai de Bela, uma vez que este perde toda sua fortuna num negócio mal sucedido. Daí a partir desse fracasso, Bela, diferentemente de suas irmãs, se compadece do pai, abdicando de sua vida para ajudá-lo, recusando de todas as propostas de casamento que lhe foram oferecidas. Suas irmãs invejam-na, pois mesmo sem dote, permanecia sendo cortejada e admirada pelos rapazes, o que não aconteciam com aquelas.

            Nesse primeiro momento do conto, percebemos que Bela é como um ego indiferenciado, uma vez que vive num estado de simbiose com seu pai, o que pode representar, metaforicamente, um estado de caos, de inconsciência. O processo de diferenciação se dá a partir do momento em que o pai de Bela parte em viagem, em busca de reaver sua riqueza. O interessante é que antes de partir, oferece um presente cada uma das filhas e enquanto as irmãs pedem bens materiais (jóia e vestido), Bela pede apenas uma rosa.

           O simbolismo da rosa é extremamente rico, visto que a rosa esta associada aos mistérios de Isis, como também ao culto da deusa Afrodite (ou Vênus). Além, disso a rosa, como as demais flores, por terem formato circular, representam a totalidade, o Self e a busca pela perfeição através do processo de individuação. Segundo Jung (2006), a rosa, em geral, dispostas em quatro raios, o que indica a quadratura de um círculo, representando assim a união dos opostos, simboliza a totalidade.



            Sobre os símbolos da totalidade, Jung estudou as mandalas das religiões orientais. “Mandala”, em sânscrito, significa círculo e designa os desenhos circulares utilizados em rituais de contemplação. “A meta da contemplação dos processos representados na mandala é que o iogue perceba (interiormente) o deus, isto é, pela contemplação ele se reconhece a si mesmo como deus, retornando assim a ilusão da existência individual à totalidade universal do estado divino.”(JUNG, 2006, p. 353)

           Edinger (2008), fala sobre o aspecto teleológico das flores, que é de atrair através da beleza e de seu símbolo como uma isca para ego na busca da perfeição através do processo de individuação. “Eu penso que as flores são, primeiramente, uma referência ao aspecto erótico da energia motivadora. Nos sonhos, as flores geralmente apontam para duas idéias principais: quando uma flor única é enfatizada, com muita freqüência indica uma imagem mandálica, já que flores são mandalas naturais. A outra idéia é a de que flores representam a capacidade natural de atrair. Elas são representações da beleza, uma isca. Provavelmente, do ponto de vista teleológico, é para isso que uma planta gera flores. Elas atraem criaturas que servem aos seus propósitos. Assim, consideradas psicologicamente, as flores representariam a isca de beleza que o inconsciente estende para o ego, para atraí-lo ao processo de individuação”(EDINGER, E. 2008, p.60-62)

            As flores também representam o elixir da vida, uma vez que a floração exprime o retorno ao centro, à unidade, ao estado primordial. Por isso, muitas vezes são consideradas a representação da alma, o centro espiritual: “Associadas analogamente às borboletas, tal como elas, as flores representam as almas dos mortos. [...] Com efeito, muitas vezes a flor apresenta-se como figura-arqúetipo da alma, como centro espiritual.” (Chevalier, J., 1998, p. 438-439) No conto em questão, a rosa é o elemento instigador de todo o drama que se seguirá, pois é a partir de seu roubo se dará toda a transformação da personagem principal. Assim como, a mordida da maçã do jardim do Éden, o roubo da rosa é o ato transgressor que traz luz ao desconhecido, uma vez que produz consciência e promove a transformação.


              Ao roubar a rosa de um castelo desconhecido, o pai de Bela se depara com a Fera que o condena a morte por seu ato. Porém, diante das súplicas do pobre homem, a Fera poupa-lhe a vida com a condição que uma de suas filhas fosse morar em seu castelo. Retornando ao lar, o pai entristecido conta o ocorrido, e Bela se oferece para morar com a Fera. Nesse momento, ocorre a separação da heroína com seu núcleo familiar. Vale ressaltar que o tema da separação é muito freqüente nos mitos de criação, nas sagas heróicas. Segundo Edinger (2008) a separação (operação separatio, na alquimia) corresponde ao ato inicial de criação, que cinde a luz das trevas.


              Como no mito da criação cristão, no começo havia apenas caos e a partir da intervenção divina, houve uma cisão, separando a terra do céu. Alegoricamente, essa separação corresponde ao nascimento da consciência, o nascimento do ego – o que no conto corresponde a ida da heroína ao castelo da Fera. A partir do roubo da rosa, tem início a difícil missão da heroína que é viver num novo mundo e conviver com a Fera. Essa difícil missão é o anúncio da opus alquímica, o prenúncio da transformação. A Fera é a representação de num animus animalesco, regredido e, até mesmo, negligenciado, pois vive só em seu castelo.

             O encontro de Bela e a Fera seria assim uma alegoria do contato entre ego-animus. Ao entrar em contato com Fera, uma criatura repugnante, Bela sente medo, mas com o passar do tempo é construído um vínculo entre os dois personagens. Como prova de confiança, a Fera deixa Bela visitar sua família. O retorno ao lar de Bela, representa a regressão do ego diferenciado ao inconsciente original, o que se assemelha a operação alquímica solutio.

             “Para o alquimista, a solutio significava o retorno da matéria diferenciada ao estado original indiferenciado, prima matéria. A água era vista como útero, e entrar na água, a solutio, era retornar ao útero para renascer.”(EDINGER, E. 2008, p. 66) Jung sugere em sua teoria uma relação simbólica entre a mãe e o inconsciente, pois, como a mãe é fonte da vida física, também o inconsciente é a fonte da vida psicológica. Portanto, a mãe e o inconsciente podem ser vistos como símbolos femininos equivalentes.

      Autora: Gabriella Gomes Cortes. Psicóloga graduada pela UFRJ. Pós- graduanda em Psicologia Analítica pelo IBMR. Psicóloga da Prefeitura de Niterói (SMAS)   

O Conto “A Bela e a Fera”: da simbologia alquímica ao processo de individuação - Parte 1

                  O Conto “A Bela e a Fera”: da simbologia alquímica ao processo de individuação
                   
A Bela almoçando com a Fera em uma ilustração de Anne Anderson.

 Resumo: O presente artigo tem por objetivo abordar o caráter transformador do arquétipo de animus e o processo de integração deste em paralelo ao processo de individuação, a partir do conto A Bela e a Fera, que nos mostra a metamorfose do noivo-animal em príncipe. Com relação ao processo de individuação, analisamos o símbolo do casamento presente em vários contos de fada, como símbolo alquímico do processo, representando a união dos opostos, representação da meta psíquica pela totalidade.

Palavras-chave: arquétipo de animus, símbolo, processo de individuação, coniunctio

A Bela e a Fera (A Bela e o Monstro em Portugal) é um tradicional conto de fada francês. Em francês La Belle et la Bête, a primeira versão do conto foi publicado por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve em La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins, em 1740. (WIKIPEDIA, 2009).

A versão mais conhecida foi um resumo da obra de Madame Villeneuve, publicado em 1756 por Madame Jeanne-Marie LePrince de Beaumont, no Magasin des enfants, ou dialogues entre une sage gouvernante et plusieurs de ses élèves. A primeira versão inglesa surgiu em 1757. (op. cit.)

            Resumidamente, o conto "A Bela e a Fera" relata a história da filha mais nova de um rico mercador, que tinha seis filhos: três homens e três mulheres. Enquanto as filhas mais velhas gostavam de ostentar luxo, de festas e lindos vestidos, a mais nova, que todos chamavam Bela, era humilde, gentil, generosa e tratava bem as pessoas.

           Certo dia, o mercador perdeu toda a sua fortuna, com exceção de uma pequena casa distante da cidade. Bela e seus irmãos aceitaram a situação com dignidade, mas as duas filhas mais velhas não se conformavam em perder a fortuna e os admiradores, e descontavam suas frustrações sobre Bela, que humildemente não reclamava e ajudava seu pai como podia.

            Um dia, o mercador recebeu notícias de bons negócios na cidade, e resolveu partir. As duas filhas mais velhas, esperançosas em enriquecer novamente, encomendaram-lhe vestidos e futilidades, mas Bela, preocupada com o pai, pediu apenas que ele lhe trouxesse uma rosa. Quando o mercador voltava para casa, foi surpreendido por uma tempestade, e se abrigou em um castelo que avistou no caminho.

           Ao partir, pela manhã, avistou um jardim de rosas e, lembrando do pedido de Bela, colheu uma delas para levar consigo. Foi surpreendido, porém, pelo dono da roseira, uma Fera pavorosa, que lhe impôs uma condição para viver: deveria trazer uma de suas filhas para ficar em seu lugar.

           Ao chegar em casa, Bela, mediante a situação resolveu se oferecer para a Fera, imaginando que esta a devoraria. Porém, ao invés de a devorar, a Fera mostrou-se aos poucos como um ser sensível e amável, fazendo todas as suas vontades e tratando-a como uma princesa. Assim, apesar de achá-lo monstruoso, Bela se apegou a Fera. Certa vez, Bela pediu que a Fera a deixasse visitar sua família, pedido que foi concedido, a muito contragosto, com a promessa de ela retornar em uma semana. O monstro combinou com Bela que, para voltar, bastaria colocar seu anel sobre a mesa, e magicamente retornaria.

            Bela visitou alegremente sua família, mas as irmãs, ao vê-la feliz, rica e bem vestida, sentiram inveja, e a envolveram para que sua visita fosse se prolongando, na intenção de Fera ficar aborrecida com sua irmã e devorá-la. Bela foi protelando sua volta até ter um sonho em que via Fera morrendo. Arrependida, colocou o anel sobre a mesa e voltou imediatamente, mas encontrou Fera morrendo no jardim, pois essa não se alimentara mais temendo que Bela não retornasse.

Ilustração para a edição de “Beauty and the Beast”, Walter Crane,
Londres: George outledge and Sons, 1874
           Assim, Bela compreendeu que amava a Fera, que não podia mais viver sem ela, e confessou ao monstro sua resolução de aceitar o pedido de casamento. Mal pronunciou essas palavras, a Fera se transformou num lindo príncipe, pois seu amor colocara fim ao encanto que o condenara a viver sob a forma de uma fera até que uma donzela aceitasse se casar com ele. O príncipe casou com Bela e foram felizes para sempre.

            Analisando o conto, observamos que inicialmente, a convivência com a Fera era assustadora para a jovem. Contudo, ao aprender a valorizá-la, respeitá-la e amá-la, esta se transforma num príncipe, e o pai da moça é salvo. Deste modo, a redenção do pai é a transformação da “Fera”, do animus negativo que existe no interior da mulher, em um homem que tem uma boa relação com o feminino. Assim, redimir o pai é, de certo modo, redimir o feminino.

            A redenção do feminino ocorre quando a mulher não é nem submissa ao masculino, nem o imita. Deste modo, a redenção do feminino se dá quando a mulher passa a se valorizar e a viver de maneira espontânea, de acordo com suas necessidades e sentimentos, sendo capaz de dialogar com seu animus, não sendo, portanto, controlada por ele. “(...). Toda mulher tem uma dimensão masculina, geralmente oculta em sua psique inconsciente. Corresponde-lhe, no homem, a presença de um lado feminino que, no mais das vezes, é inconsciente e inacessível.

            A tarefa do crescimento pessoal para cada um é tomar consciência desse lado contrassexual, valorizá-lo e exprimi-lo conscientemente, quando a situação for apropriada. Quando o lado contrassexual é aceito e valorizado, torna-se uma fonte de energia e inspiração, permitindo a união criativa dos princípios masculino e feminino no interior da pessoa, assim como o relacionamento criativo entre homem e mulher.”(LEONARD, 1997, p.55)

            Grande parte dos contos de fada tem um final feliz, simbolizado pelo casamento, que segundo Estés (1994) representa a procura de um novo status, o desdobramento de uma nova camada da psique. Na alquimia a união entre opostos é comumente representada pelo casamento entre figuras masculinas e femininas, o que é denominado de coniunctio. A coniunctio alquímica simboliza uma união transformadora de substancias dessemelhantes.

            A partir dos símbolos alquímicos, Jung vislumbra alegorias do processo de individuação, como explicitado da seguinte citação: “O lado místico da alquimia é, deixando de lado o aspecto histórico, um problema psicológico. Trata-se, ao que parece, do simbolismo concretizado (projetado) do processo de individuação. Este produz ainda hoje símbolos que têm a mais íntima relação com a alquimia. Devo remeter o leitor, no tocante a isso, a meus trabalhos anteriores que tratam dessa questão do ponto de vista psicológico, ilustrando o processo com exemplos práticos.”(JUNG, 2003, p. 107).

Autora: Gabriella Gomes Cortes. Psicóloga graduada pela UFRJ. Pós- graduanda em Psicologia Analítica pelo IBMR. Psicóloga da Prefeitura de Niterói (SMAS)

terça-feira, 10 de março de 2015

Flor de Lótus na Mitologia Grega

Flor de Lótus na Mitologia Grega

Na mitologia grega, os Lotófagos são um povo que vivia numa ilha perto do Norte de África e que como o nome indica, comiam plantas e flores de lótus. Estas plantas têm o efeito de um narcótico que causa um sono pacífico e também amnésia a quem as ingerir.
Na Odisseia de Homero, existe um episódio em que três homens são enviados para a ilha de forma a investigá-la. No entanto, por comerem as flores de lótus como os restantes habitantes, esquecem que têm que voltar para o barco. Mais tarde, Ulisses consegue resgatar os homens e teve mesmo que os amarrar ao navio para que eles não voltassem para a ilha. Através desta história, Homero demonstra toda a sua criatividade e conhecimento a respeito do ser humano, porque a amnésia causada pela flor de lótus é uma coisa que muitas pessoas desejam: a possibilidade de começar de novo, de renascer e apagar o passado.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A vida começa onde termina a sua zona de conforto !


                                    A vida começa onde termina a sua zona de conforto !




A zona de conforto pode ser sedutora, irresistível, “familiar” e desastrosa. Pode ser definida como a nossa tendência a fazer o que é fácil, cômodo e conhecido, sem intenção de interromper ciclos viciosos e improdutivos ou de começar algo novo ou desafiador, que demande autodisciplina, motivação e comprometimento e que cause dispêndio extra de energia e nos tire da inércia.

A origem da palavra conforto vem do latim, cumfortare, e significa aliviar a dor ou a fadiga. Está associado a “um estado prazeroso de harmonia fisiológica, física e psicológica entre o ser humano e o ambiente”. É a nossa tendência de evitar os medos, a ansiedade ou algum tipo de desgaste. Tendemos a ficar num território onde podemos predizer e controlar os acontecimentos. Que pode garantir um desempenho constante, porém limitado e com uma pseudo sensação de segurança.

As causas mais frequentes que nos fazem ficar na zona de conforto são:
· Preguiça: Quando o indivíduo sente cansaço, falta de energia, apatia, desinteresse, depressão, ansiedade, culpa, desmotivação ou tudo ao mesmo tempo…
· Soberba: Quando ele não sente necessidade de aprender nada ou de aprimorar-se, por achar-se pronto, “brilhante” e perfeito (“síndrome do copo cheio”).
· Medo: Quando tem receio de enfrentar os próprios medos: medo do desconhecido, dos riscos, das incertezas, do que pode acontecer, de perder controle ou do que os outros possam pensar.
· Miopia: Quando não se têm claros os impactos e as consequências de algumas atitudes e comportamentos em nossas vidas, no médio e longo prazos.

E quais as consequências de ficarmos neste estado letárgico, reativo e confortável? Várias…
· Desperdício do próprio talento: que é um processo de auto-sabotagem… Apesar da pessoa ter muito potencial, não consegue otimizá-lo nem transformá-lo em performance (como uma mina de diamantes lacrada, inexplorada e improdutiva).
· Impactos negativos na carreira, na imagem e na empregabilidade: ao invés da pessoa ter uma carreira ascendente e bem sucedida, fica estagnada ou até involui profissionalmente.
· Pode acarretar prejuízos à saúde (sedentarismo, obesidade ou dependência química), ao intelecto (perda de memória, de raciocínio e de agilidade mental), à psique (imaturidade, dependência, insegurança e áreas cegas) e à dimensão espiritual (falta de altruísmo, de senso de propósito e da capacidade de ajudar as outras pessoas).
· Pode fazer com que invistamos pouco no nosso autodesenvolvimento, que está ligado a aprender, a mudar nossos comportamentos, a evoluir e a buscar nosso sucesso.



Para finalizar, algumas dicas para não ficarmos na nossa zona de conforto e sermos pessoas realizadas, equilibradas e bem-sucedidas :
· Sonhem grande!
· Sejam muito competentes e comprometidos em tudo que fizerem.
· Sejam muito curiosos, nunca parem de estudar e aproveitem ao máximo os cursos que fizerem;
· Leiam MUITO;
· Façam intercâmbio no exterior (trabalho ou estudo);
· Façam parte de alguma entidade na sua área/ faculdade/ sociedade;
· Fiquem completamente fluentes em inglês e espanhol;
· Preocupem-se com a imagem que projetam para os chefes, clientes, fornecedores, colegas, professores, etc;
· Pratiquem esportes coletivos/ aventura;
· Façam trabalhos voluntários;
· Administrem seu tempo e sua energia com sabedoria (prazer + dever);
· Tenham lazer muito saudável e gratificante.

Sandra Betti é sócia-diretora da consultoria MBA Empresarial .

terça-feira, 3 de março de 2015

O Arquétipo de Mulheres Curadoras

Segundo Clarissa Pínkola, em sua obra eternizada Mulheres que correm com os lobos,o arquétipo do grande curador contém sabedoria, bondade, conhecimento, solicitude e todas as outras qualidades associadas a quem cura.
Para aprofundar o conhecimento deste arquétipo que rege o feminino sagrado, tanto na mulher quanto no homem, transcrevo abaixo este maravilhoso artigo, publicado por Mani Alvarez com o nome de Mulheres Curadoras. Verdadeiras e sábias palavras arranjadas numa sinfonia de parágrafos sobre a evolução do trabalho das curandeiras no mundo atual! Salve Grande Mãe Natureza, Pachamama, Elementais, Devas, Consciências Minerais, Cristalinas, Vegetais e Animais! Salve Mãe Terra, pois tudo o que representamos em nome da Cura e do Amor é a Centelha Divina como espelhamento de tua grandiosa Consciência de Luz! Somos Todos Um! ;)
“Erveiras, raizeiras, benzedeiras, mulheres sábias que por muito tempo andaram sumidas, ou até mesmo escondidas. Hoje retornam com um diploma de pós-graduação nas mãos e um sorriso maroto nos lábios. Seu saber mudou de nome. Chamam de terapia alternativa, medicina vibracional, fitoterapia, práticas complementares…são reconhecidas e respeitadas, tem seus consultórios e fazem palestras.
As mulheres curadoras fazem parte de um antigo arquétipo da humanidade. Em todas as lendas e mitos, quando há alguém doente ou com dores, sempre aparece uma mulher idosa para oferecer um chazinho, fazer uma compressa, dar um conselho sábio. Na verdade, a mulher idosa é um arquétipo da ‘curadora’, também chamada nos mitos de Grande Mãe.
Não tem nada a ver com a idade cronológica, porque esse é um arquétipo comum a todas as mulheres que sentem o chamado para a criatividade, que se interessam por novos conhecimentos e estão sempre a procura de mais crescimento interno. Sua sabedoria é saber que somos “obras em andamento’, apesar do cansaço, dos tombos, das perdas que sofremos… a alma dessas mulheres é mais velha que o tempo, e seu espírito é eternamente jovem.
Talvez seja por isso que, como disse Clarissa Pinkola, toda mulher parece com uma árvore. Nas camadas mais profundas de sua alma ela abriga raízes vitais que puxam a energia das profundezas para cima, para nutrir suas folhas, flores e frutos. Ninguém compreende de onde uma mulher retira tanta força, tanta esperança, tanta vida. Mesmo quando são cortadas, tolhidas, retalhadas, de suas raízes ainda nascem brotos que vão trazer tudo de volta à vida outra vez.
Por isso entendem as mulheres de plantas que curam, dos ciclos da lua, das estações que vão e vem ao longo da roda do sol pelo céu. Elas tem um pacto com essa fonte sábia e misteriosa que é a natureza. Prova disso é que sempre se encontra mulheres nos bancos das salas de aula, prontas para aprender, para recomeçar, para ampliar sua visão interior. Elas não param de voltar a crescer…
Nunca escrevem tratados sobre o que sabem, mas como sabem coisas! Hoje os cientistas descobrem o que nossas avós já diziam: as plantas têm consciência! Elas são capazes de entender e corresponder ao ambiente à sua volta. Converse com o “dente-de-leão” para ver… comunique-se com as plantas de seu jardim, com seus vasos, com suas ervas e raízes, o segredo é sempre o amor. 
Extraído do blog :https://wohaliterapias.wordpress.com/2015/02/10/o-arquetipo-da-curadora-na-atualidade/

Alguns conceitos fundamentais da Psicologia Analítica de Carl G. Jung



A Consciência é definida como a parte da personalidade da qual temos conhecimento. O inconsciente, referente à tudo que desconhecemos em nossa psique, é formado por 2 partes : Inconsciente Pessoal e Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente Pessoal reporta-se às camadas mais superficiais do inconsciente, onde se escondem as experiências rejeitadas pelo “Eu”, e consequentemente, reprimidas ou desconsideradas, como lembranças penosas, conflitos pessoais ou morais. Ali estão ocultos inúmeros traços de nossa personalidade que nos desagradam, e por tal, são por nós ignorados.

Os conteúdos do Inconsciente Pessoal, via de regra, tem fácil acesso à consciência, quando tal se faz necessário.Eles encerram também os Complexos, aglomerados de sentimentos, pensamentos e lembranças carregados de forte potencial afetivo, incompatíveis com a atitude consciente. Eles retém a Energia Psíquica, não a deixando fluir.

Qualquer experiência que tocar os Complexos provocará uma reação exacerbada, com força própria, que pode atuar de modo impetuoso e veemente no controle de nossos pensamentos e comportamentos.São como pequenas personalidades autônomas, separadas da personalidade total, razão pela qual se diz que “uma pessoa não tem um complexo, mas este é que a tem “. Apenas os outros o percebem.

Embora a Energia Psíquica aprisionada possa gerar sintomas de caráter patológico, por vezes representando um obstáculo ao ajustamento do indivíduo, o Complexo não é necessariamente patológico, podendo até vir a ser uma fonte de inspiração, numa manifestação artística, por exemplo.



O Inconsciente Coletivo é o depósito das “imagens primordiais”, que nos remetem ao mais primitivo desenvolvimento da psique.

Essas imagens, herdadas de nosso ancestrais, nossos antecessores humanos, pré-humanos e animais—são predisposições ou potencialidades no experimentar e no responder ao mundo, comportamentos, reações e memórias inconscientes que carregamos do passado, como um elo que liga-nos a nossos mais remotos antepassados.



Os conteúdos do Inconsciente Coletivo são denominados “Arquétipos”, definidos como “formas sem conteúdo que representam apenas uma possibilidade de percepção e ação “(Jung).

São universais—todos herdamos as mesmas imagens arquetípicas básicas, que serão preenchidas por nossa experiência consciente. Assim que o bebê toma contato com a figura materna, a imagem pré-formada de “mãe” é amplificada, sendo agora definida pela aparência e comportamento da mãe verdadeira e pelas experiências que terá com ela ao longo da vida.

O Arquétipo é o núcleo do Complexo.Ele atrai para si experiências significativas a fim de formar o Complexo, tornando-se suficientemente forte para constituir o centro de um complexo bem desenvolvido, e assim poder se expressar na consciência e através do comportamento.

Existe um número inimaginável de Arquétipos : pai, mãe, herói, criança, Deus demônio, nascimento, morte, renascimento, sábio, embusteiro, sol, lua.



Quando um indivíduo inicia um processo de análise, a energia aprisionada em um determinado complexo, gerando sintomas, será liberada e posteriormente direcionada para o si-mesmo, o centro e a totalidade do que somos, a nossa essência, o centro de nossa personalidade. 

Desta forma, o complexo do “Eu”, o mediador entre o inconsciente e o consciente, e entre nós e o mundo que nos rodeia, poderá servir com respeito e fidelidade ao si-mesmo, cuja visão é infinitamente maior do que a limitada visão do “Eu”.
O “Eu” ou Ego, é um termo usado por Jung para representar o complexo que constitui o centro da consciência.